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Com retração de bancos, empresas recorrem a fundos para ter crédito

Por ANA PAULA RIBEIRO / O GLOBO – Revisão para Site Sul Invest por Caio Pazzoto

SÃO PAULO – Com os bancos ainda muito retraídos na concessão de crédito, muitas empresas médias e até de grande porte estão recorrendo a alternativas para levantar recursos e reforçar o caixa para continuar produzindo. Uma opção cada vez mais procurada são os fundos de investimento em direitos creditórios, os chamados FIDCs, cujos estoques cresceram 15,4% no ano passado, na contramão do crédito bancário, que encolheu 3,5%.

E as novas emissões de FIDCs deram um salto maior ainda, indo de R$ 3,6 bilhões em 2015 para R$ 5,6 bilhões, um aumento de 53,5%, levando o estoque a R$ 10,7 bilhões.

PROCURA DE GRANDES EMPRESAS

Este é o caso, por exemplo, da fabricante mineira de condutores elétricos Condupasqua. Em meio a um processo de recuperação judicial, a empresa não conseguia contratar crédito nos bancos, mas, como como precisava de capital para continuar produzindo e pagando os credores, a saída foi recorrer aos FIDCs.

— Estamos em recuperação, e, com a crise, as portas dos bancos se fecharam. Os que ainda oferecem linhas têm taxas mais altas. Os juros no FIDCs são mais baixos, e se consegue o dinheiro para ir trabalhando. E também são mais rápidos — diz Giovanni Pasqua, diretor-executivo da Condupasqua, que, em 2016, faturou cerca de R$ 120 milhões.

Na prática, as empresas que buscam os FIDCs cedem às instituições financeiras créditos que têm a receber de diferentes clientes. Uma companhia que produz eletrodomésticos, por exemplo, vende seus produtos a prazo para varejistas de diferentes partes do país. Esses créditos, chamados de recebíveis, são “empacotados” por gestores especializados e viram lastro (garantia) de um fundo, que antecipa à empresa essas receitas, cobrando uma taxa de juros. Os investidores desses fundos terão como rendimento o fluxo desses créditos, na medida em que eles forem pagos.

De acordo com Francisco da Costa Carvalho, diretor de Relações Institucionais da Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (ANFIDC), o agravamento da crise fez crescer o número de empresas interessadas em levantar recursos por meio dessas operações. Até pouco tempo atrás, os FIDCs eram muito usados por empresas com faturamento de até R$ 400 milhões. Isso mudou.

— Tínhamos muitas empresas com faturamento até essa faixa, mas agora o setor produtivo está sem crédito, e já vemos empresas maiores, com faturamento de mais de R$ 1 bilhão, recorrendo a essa alternativa — conta Carvalho.

Para este ano, a entidade projeta um crescimento para os estoques de FIDCs no mínimo igual ao de 2016. Segundo Carvalho, outra vantagem dos fundos em relação ao mercado bancário é a liberação mais rápida do dinheiro. Uma vez analisado o perfil dos recebíveis que serão cedidos, os trâmites são mais simples que os exigidos pelos bancos — que muitas vezes fixam limites à empresa. Caso suas vendas aumentem e ela busque mais recursos, terá de passar novamente por todo o processo de análise de crédito e garantias.

Marcelo Michaluá, presidente da RB Capital, também vê um ambiente propício para o crescimento dos FIDCs:

— Mesmo com a queda dos juros e retomada da economia, os bancos devem demorar mais tempo para voltar ao ritmo de concessão normal. Eles ainda estão absorvendo reestruturações de crédito complexas que ocorreram devido ao cenário de crise.

RAPIDEZ E CUSTO MENOR

A dificuldade de acesso ao crédito bancário é uma realidade cada vez mais comum no meio empresarial. Levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que, de um grupo de 430 empresas, 11,7% tiveram seu pedido de empréstimo recusado, enquanto 25,4% conseguiram valores bem inferiores aos solicitados.

Vilmar Silveira, presidente da Sul Invest FIDC, diz que a rapidez com que se pode montar um fundo de FIDC e captar investidores explica a demanda crescente pelo instrumento.

— Trabalhamos só com o fluxo de notas promissórias a vencer, e nossas taxas vão de 1,80% a 2,20% ao mês, o que é mais baixo que a maior parte das linhas de capital de giro dos bancos — diz Silveira, acrescentando que, por serem isentos do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), os FIDCs têm custo menor que o de um empréstimo bancário.

Fonte: O Globo